O Boletim Focus mais recente aponta para recessão de 3,34% para o PIB brasileiro este ano, mas o Morgan “não se surpreenderia” com uma queda da ordem de 5%. Isso significa que os clientes que tomam crédito nessas fintechs, em geral pessoas com maior dificuldade em encontrar subsídios em grandes bancos por terem perfil de crédito de menor qualidade, verão queda abrupta na receita.
A média de crescimento da inadimplência em cartões de crédito para 15 países nas crises dos últimos 10 anos foi de 47% entre seis e nove meses após o início da recessão.
O relatório exemplifica a gravidade deste ponto com Banco Inter, onde 71% dos novos empréstimos nos últimos 12 meses são oriundos de cartões de crédito – estes emitidos, em sua maioria, para clientes sem relação anterior com a instituição.
Queda nos volumes e no crescimento de receitas com menos investimentos e aumento da preferência pela segurança de instituições financeiras já estabelecidas
Dado o cenário descrito nos itens anteriores, “as fintechs serão forçadas a focar em preservação de capital e crescer vagarosamente – exatamente o oposto do que vêm fazendo desde o início”, lembrou o Morgan – ou seja, fatalmente menos capital será investido na atração de clientes.
Outro agravante e que momentos de crise como este podem gerar desinteresse por parte dos clientes, principalmente porque muitos deles usam as empresas novatas como segunda conta, mantendo o relacionamento com bancos tradicionais. Com isso, o Morgan avalia o risco de um flight-to-safety (alusão ao termo flight-to-quality usado principalmente no mercado imobiliário), ou seja, uma busca pela segurança dos players maiores.
Quem sai ganhando?
O Brasil tem a maior indústria de fintechs da América Latina, aponta pesquisa da Fintech Lab. Em 2019, operavam 529 empresas financeiras baseadas em tecnologia no país, sendo a vertical de pagamentos a mais relevante, com 151 representantes. Crédito, a frente que deve ser mais afetada, aparecia em segundo lugar, com 95 representantes. De todas, 61% das fintechs brasileiras operam há três anos ou menos e cerca de 48% têm até 10 funcionários.
A queda dessas centenas de pequenas e jovens empresas pode levar grandes instituições a recuperar parte do terreno perdido e sair fortalecidas da crise. “Ainda que poucas [fintechs] tenham fatia de mercado relevante, a imensa quantidade de novos pequenos empreendimentos estava evidentemente impactando volumes e preços”, aponta Kuri.
Por sua vez, essas fintechs já estabelecidas podem observar uma janela interessante para fusões e aquisições, “mas a preservação de capital pode limitar a consolidação entre disruptoras”.
Do ponto de vista de investimentos, o relatório aponta ações de grandes bancos e fintechs estabelecidas (como Stone e PagSeguro) como bons jogadores para uma carteira que queira aproveitar esse movimento. Desaconselha, entretanto, o investimento em Banco Inter (BIDI4), cujo modelo de negócio é “aparentemente difícil de monetizar”.