“A inflação agora não só está muito alta, como também muito disseminada”, afirmou o economista Alberto Ramos, em análise para o Goldman Sachs. No acumulado de 12 meses, o IPCA desacelerou de 12,13% para 11,73% em maio. Mas o banco acredita que a inflação deve permanecer acima de 10% até outubro de 2022 e acima de 8% até março de 2023.
“O amplo e provavelmente duradouro choque nos preços das commodities e nos custos de logística e de produção devem manter a inflação ao consumidor pressionada para cima no curto prazo”, escreveu Ramos.
O IPCA de maio refletiu uma desaceleração nos preços administrados, de 15,04% em abril para 12,10% em maio.
“Transportes foi uma surpresa positiva e deve continuar nessa direção, uma vez que o governo provavelmente aprovará a redução de impostos sobre os combustíveis. A substituição da tarifa de energia pela bandeira verde também foi capaz de proporcionar algum alívio e foi a principal contribuição para a desaceleração mensal”, escreveu David Beker, estrategista do Bank of America (BofA).
Segundo ele, o desempenho do indicador condiz com a crença do BofA de que a inflação atingiu seu pico. “Esperamos uma desaceleração maior pela frente”, diz a análise de Beker. O Bofa prevê IPCA de 0,43% em junho e de 0,52% em julho.
“O resultado positivo dá mais razões para que o Banco Central não vá adiante com a alta de juros e apoia nossa visão de um último ajuste de 50 pontos base em junho, levando a Selic a 13,25%”, conclui o estrategista.
A XP revisou levemente para baixo a projeção para junho após o dado do IPCA, de 0,69% para 0,66%. Para o ano, a projeção da casa é inflação de 9,2%.
Porém, o núcleo da inflação subiu mais do que no mês anterior, com a inflação de serviços avançando 8,02% em maio ante 6,94% em abril.
“Mas não consideramos nesse cenário as medidas do PLP 18/2022, PECs anunciadas pelo governo, além do PLP 1280 que antecipa créditos tributários para distribuidoras de energia elétrica. Somadas, essas medidas podem ter impacto de -2,9 ponto percentual no IPCA de 2022”, escreveu Tatiana Nogueira, economista da XP.
Núcleos da inflação continuam pressionados
A Kínitro Capital observa que, mesmo com a desaceleração, os núcleos da inflação continuam pressionados.
“Dentre os preços livres, os de bens industriais seguem preocupando, assim como a aceleração gradual dos serviços, o que mantém os núcleos elevados”, afirma João Savignon, economista da Kínitro. Ele explica que a difusão continua mostrando uma inflação amplamente disseminada entre os bens e serviços pesquisados.
Alimentação no domicílio foi um componente que desacelerou, mas os preços industriais seguiram com alta firme (de 1,06%), mantendo sequência de leituras acima do teto dos últimos 10 anos. Por sua vez, a inflação de serviços subiu mais 0,85% em relação ao mês anterior.
“Apesar do headline (número principal) abaixo do esperado, ainda enxergamos a composição do índice de forma desfavorável, corroborando a projeção de mais uma elevação de 50 pontos base na Selic na semana que vem”, diz análise da Eleven.
Para André Perfeito, economista-chefe da Necton, o IPCA de maio “corrobora para a leitura de que alguns grupos atingiram em parte certo teto, uma vez que já subiram de maneira relevante – logo não é razoável supor altas ainda maiores na margem”.
Este, segundo ele, parece ser o caso do grupo alimentação, que após subir 2,06% no mês anterior, avançou apenas 0,48% em maio.
” Podemos afirmar que o resultado de hoje do IPCA sugere fortemente que o Banco Central deve fazer apenas mais uma alta de 50 pontos base na sua taxa básica, levando esta para 13,25% e parando neste patamar”, escreveu o economista.
Gustavo Pessoa, gestor da Legacy Capital, afirma que o IPCA de maio sugere que a política de aperto monetário do Banco Central já começa a surtir efeito. “O Banco Central não precisaria subir mais os juros, mas deve promover uma última alta de 0,25 pp na próxima semana”, disse ele.
Fonte: Infomoney